quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por quê Eu Sou?

Eu sou é a flexão do verbo ser na primeira pessoa do singular. Na nossa cultura ocidental, o "eu" vir em primeiro lugar na conjugação verbal, demonstra como damos o primado ao ego: primeiro eu, depois você, depois os outros. Mas Eu Sou é conhecido desde o Antigo Testamento como o nome em que a Divindade se apresenta a Moisés (no Êxodo, perguntado por este: quem és tu, qual o seu nome, responde  Deus: Eu Sou o que Sou: "Diga-lhes que o Eu Sou (que significa o único Deus Eterno, que existiu e existirá para sempre) te enviou." Eu Sou nesse sentido é tão ancestral (e universal) que também aparece no Bagavad Gita: Eu Sou Vós e vós sois Eu, diz Krishna (Cristo) a Arjuna.

A ponte que podemos fazer é que sendo "eu sou" a flexão mais originária  do verbo ser ou o enunciado mais simples entre o sujeito e predicado (aquele que é), pois remete àquele ente ou ser filosófico, inexplicável em sua origem e existência pela pura razão lógica, que pensa e que nos faz pensar, e que só pode ser entendido nestes termos metaforicamente, por aproximações, de sentidos e imagens até mesmo inimagináveis.

Mas como podemos mudar o sentido literal, de eu sou, como um referência a nós mesmos, portanto limitada, para compreendê-lo como Divindade Eu Sou? Entendo que aqui reside uma operação de transformação do sentido literal para o sentido figurado, com um horizonte de sentido novo, da existência da Divindade em nós mesmos, mas como um convite a vivê-la, reconhecendo nossa origem divina. Quem sou eu, quem é você quem são os outros: Eu Sou. E como já disse um filósofo (Paul Ricouer - A Metáfora Viva), na metáfora, o “mesmo” opera apesar do “diferente”, como semelhança e desafio semântico, em permanente tensão de siginificados.

Mas em Eu Sou, se dá o contrário, apesar de ser uma metáfora que remete a uma semelhança, opera sem tensão alguma. Eu Sou é pura harmonia, grandeza e simplicidade! Semelhança entre nós e a divindade que em nós reside, que nós somos, e na qual habitamos, sem sê-la - a Divindade Suprema nos é intrínseca e extrínsica (já que toda verdade, compreendida até hoje como a adaequatio escolástica, para a ilusão do intelecto, é meia verdade, e todos os paradoxos podem ser reconcialiados - O Caibalion). Eu Sou é re-ligare, a verdadeira religião - sendo verdade compreendida aqui no sentido grego, pré-socrático, de des-velamento (alethéia). Por isso Jesus Cristo sempre se referia a si como Eu Sou, pois vivia em si essa realidade: Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida.


Imagem de topo: “Machina” - acrílico sobre tela de Beatriz Milhazes